RaçaSexualidade

Homonormatividade e racismo: como isso atinge os corpos dissidentes?

Texto por Jonathan Moreira.
Ilustração por André Cabette Fábio
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Ela chega à escola; seus quadris balançavam de um lado para o outro, alguns gritam “rebola mais para a direita que a esquerda está ganhando”; o sol aquece sua pele suada que tem cor de chocolate; seus olhos vagueiam rapidamente ao redor da sala de aula; de repente ela ouve: “Ei bichinha”! “Oi Vera Verão”.

Ser a bicha preta da escola é um dos maiores monstros que habitam em armários empoeirados! Antes de compreendermos a nossa corporalidade e a potência da nossa sexualidade, somos marcados por diversas afirmações a respeito da nossa identidade, processo que, por vezes, está relacionado com marcas violentas, pois os “dedos” da sociedade que apontam não nos convidam a pensar sobre nossa própria identidade – sobre nosso corpo. E é sobre o corpo não hétero e preto que escrevo este texto.

Quando cheguei em casa e disse para minha mãe “sou gay!”, pensei que esta frase traria a libertação que almejava, após tantas as violências que passamos na escola, na rua, na família e em diversos espaços. Sabia que esta “libertação” não seria fácil, pois todos saberiam da minha sexualidade, mas diante de todas as possibilidades, haveria algo muito positivo: agora eu poderia me relacionar de verdade, beijar, namorar, dançar juntinho, encostar a cabeça em algum ombro no centro da cidade.

Chego na festa, não beijo ninguém, danço sozinho e volto só! Fim. Descubro alguns aplicativos gays, talvez esse caminho dê certo. Outra tentativa falha. Às vezes, acontece, mas é na marginalidade, nos darkrooms que rodeiam os locais de socialização e sexo LGBTQI+. O mundo LGBTQI+, principalmente a sigla G, por vezes, tenta, incessantemente, copiar um padrão hétero, branco, cisgênero e rico, articulando-se na mesma chave machista e racista deste sistema patriarcal e se firmando na homonormatividade. Um modelo que reproduz as tamanhas violências, pois não engloba as diversidades de corpos e as pessoas que não se encaixam neste ideal são vistas de fora, como o outro. Logo, acontece um processo de desumanização, transformando o outro em a “bicha poc”, a “pão com ovo”, a “mafará”, e tantas outras nomeações para falar das gays que fogem deste padrão, amado pela novela das nove.

O racismo é um fator muito significativo na homonormatividade, pois somos uma nação que em seu solo há muito suor e sangue de pessoas negras e a desumanização está relacionada com a exotização. Não podemos esquecer quantas mulheres negras foram estupradas, pois o opressor recalca seu desejo e o reproduz em formato de violência, como acontece com os corpos gays negros que constantemente são hipersexualizados, ofuscando a complexidade de subjetividades e sentimentos. Aquela frase: “aí, não posso levar você pra minha casa!”. Mas passam duas semanas, a gay branca está com outra gay branca andando de mãos dadas depois de um longo almoço.  

Demorei muito tempo para entender que meu corpo era preterido em diversos espaços de socialização LGBTQI+. Foram momentos de muita solidão, pois não entendia o que havia de errado. Ainda não é comum conversamos muito sobre isto, o que proporciona um sentido de individualização desta questão, como se você fosse realmente a única pessoa do universo que não será amada. Mas basta bater um papo com pessoas como nós para entendermos que esta mesma história se reproduz em outros corpos.

Por fim, quando visualizei formas de me relacionar que fogem dessa lógica homonormativa, foi uma grande libertação, pois se abriu um espaço para construções de outros laços de afeto. Você percebe que tem muita mana preta pra beijar, pra amar, pra ser amiga, enfim. Óbvio que não é um mundo encantado e perfeito, pois as pessoas carregam suas questões e problemas, mas é de extrema importância se filiar a estas outras possibilidades. Como diz a música “Bicha Preta”, da Linn da Quebrada:

Que eu sou uma bicha, louca, preta, favelada

Quicando eu vou passar e ninguém mais vai dar risada

Se tu for esperto, pode logo perceber

Que eu já não tô pra brincadeira

Eu vou botar é pra foder


Jonathan Moreira é artista, técnico em Arte Dramática e atualmente cursa pedagogia na Universidade de São Paulo. Colaborou no Viva Melhor Sabendo Jovem, Aliança Nacional de Adolescentes contra a Exploração Infantil, no Festival Close Certo e Festival Bixanagô.

André Cabette Fábio é jornalista e cartunista. Trabalha no Nexo Jornal, foi cenógrafo da peça ‘Brilho Raro’, é autor do quadrinho independente ‘Dor e Febre’ e faz as peças gráficas de divulgação da festa Querida Intriga.

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