Juventudes

Afeto, internet e desigualdades: um mar de inseguranças

Por Thaís Tiriba

 

Muitos trabalhos nas humanidades têm dado centralidade ao amor para a compreensão de fenômenos sociais e das múltiplas maneiras através das quais é possível experienciar a intimidade. Para essas e esses autoras/es, o amor é entendido como uma vivência subjetiva que é informada por relações sociais e normas culturais. Esse sentimento, que pode ser entendido como uma experiência pessoal e íntima, é tomado para compreender as conexões entre arenas culturais, econômicas e políticas. Essas pesquisas colocam a pergunta: como o mundo político, econômico e social mais amplo molda os aspectos íntimos das vidas das pessoas?

Essas pesquisas também estão se perguntando se os usos das tecnologias digitais e outros processos de larga escala estariam influenciando aspectos pessoais da vida das pessoas. Muitos desses trabalhos têm se voltado para a questão de como a internet está informando novas modalidades de se buscar um parceiro ou uma parceira afetivo-sexual.

O ideal de casamento moderno, da forma como o conhecemos hoje, é um desenvolvimento relativamente recente da história. Esse ideal de buscar uma parceira ou um parceiro para a vida, que vai nos amar e nos satisfazer sexualmente, é produto da era burguesa. Antes disso, casamentos não eram compreendidos necessariamente como espaços de troca emocional, afetiva e sexual. Eram alianças familiares, políticas e lugares de reprodução da sociedade.

A ideia de que podemos escolher nossos parceiros e parceiras, nossas namoradas e namorados “livremente” às vezes oculta como normas da sociedade mais ampla também vão atuar nessas escolhas. De um lado, atuam nas formas como estamos nos relacionando na contemporaneidade com o advento da internet e, de outro, na construção daquilo que achamos mais ou menos desejável e, assim, na escolha das pessoas que podemos ou não podemos amar e nos relacionar afetivo-sexualmente.

Os jovens que hoje iniciam suas vidas afetivo-sexuais o fazem em uma paisagem muito diferente de alguns anos atrás. Aplicativos de relacionamento para smartphones, como Tinder, Happn e Grindr têm tido sua base de usuários bastante ampliada nos últimos anos, principalmente nos grandes centros urbanos. Se, por um lado, esses aplicativos facilitam o encontro entre pessoas que talvez não se encontrassem de outra maneira, eles também têm um papel importante em algumas mudanças nas relações que alguns dizem estar acontecendo nos últimos tempos.

A socióloga Eva Illouz, por exemplo, argumenta que as interações românticas se invertem no namoro que se inicia na internet. A atração que costumava preceder o conhecimento de outra pessoa, hoje acontece ao contrário. Nos perfis, primeiro conhecemos as pessoas como um conjunto de atributos que escrevem (e inscrevem nas fotografias) e depois as conhecemos pessoalmente.

Uma outra novidade é que, muito diferente do que ocorria até recentemente, os aplicativos permitem que possamos visualizar todo o mercado de parceiros e parceiras potenciais. Ao mesmo tempo, os perfis estão expostos publicamente como mercadorias em um competitivo mercado de fotografias, e o corpo se transforma na maior fonte de valor (sócio-econômico). Um corpo sendo representado em uma coleção de fotografias.

Para muitos pesquisadores e pesquisadoras, é muito importante pensar a intimidade como também ligada a desigualdades e marginalidades de diversos tipos. Quais são os corpos que, em suas fotografias, terão mais curtidas? Como as lógicas sociais que hierarquizam pessoas de acordo com raça, classe, sexualidade, etc., operam nos aplicativos? Como nossas escolhas estão permeadas por essa construção social de um desejo que também é marcadamente moldado por essas normas do que é (e quem é) mais ou menos desejado no mercado dos afetos?

A maneira como olhamos (e classificamos) os perfis (pessoas) nos aplicativos parece estar muito ligada a essas questões. Nas redes sociais no geral, belos corpos de aparência desejável fotografados por celulares e câmeras (caros) de ótima resolução seguem informando nosso imaginário daquilo que é sexualmente e afetivamente desejável. E os outros corpos?

E como navegar nesses espaços afeta a subjetividade das pessoas? Homens e mulheres têm se dito cansados e incrédulos. Para muitas pessoas, a experiência da busca por parceiros e parceiras nos aplicativos é marcada fundamentalmente por sentimentos de decepção e rejeição. A possibilidade de visualizar “todas” as pessoas no mercado gera expectativas que dificilmente podem ser encontradas. Entre aquilo que aspiramos e a realidade que encontramos.

Para trazer de novo Eva Illouz, o amor é irracional. Não precisamos de um saber racional, cognitivo para saber se essa pessoa é certa. Na internet, a escolha racional por aquilo que é normativamente desejável ganha precedência. Seguindo essa lógica, muitos de nós não vamos alcançar o sucesso que desejamos.


Thais Tiriba é doutoranda em antropologia social e pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença (USP). Realiza pesquisa nas áreas de gênero, relações raciais, mercados matrimoniais transnacionais e conjugalidades contemporâneas.

André Cabette Fábio é jornalista e cartunista. Trabalha no Nexo Jornal, foi cenógrafo da peça ‘Brilho Raro’, é autor do quadrinho independente ‘Dor e Febre’ e faz as peças gráficas de divulgação da festa Querida Intriga.

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