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Fotografia: muito além da neutralidade

Por Tulio Bucchioni

Dentro do grande campo da antropologia existe uma área de estudos chamada antropologia visual. Entre os muitos conceitos que guiam as pesquisas e trabalhos nessa área de estudos, encontram-se as noções de “cultura visual” ou “visualidade”. Em linhas gerais, trata-se da ideia de que a nossa percepção visual não é neutra: a produção de imagens e a maneira como “lemos” imagens estão inseridas dentro da nossa cultura e, como não poderia deixar de ser, se organizam reproduzindo uma série de características e pressupostos que formam essa cultura.

“Cultura visual” ou “visualidade” nos permitem compreender, então, que a fotografia não é mera ilustração. Pelo contrário, a fotografia é uma linguagem que também edita a realidade de acordo com os referenciais de quem está por trás de uma máquina ou de um celular. Deixando a coisa mais concreta, poderíamos refletir sobre como a fotografia constrói padrões de beleza, referenciais de comportamento e estilo de vida e até mesmo nosso entendimento sobre as emoções humanas.

E o que dizer sobre a relação entre fotografia e gênero e sexualidade?

Se, por um lado, é mais fácil reconhecer como a imagem fotográfica está relacionada com a reprodução de padrões opressores de feminilidade e de masculinidade – e também com a heteronormatividade – mais difícil é olhar para o que não é humano e refletir sobre como esses padrões também estão presentes onde menos se desconfia. Em um de nossos encontros, inspirados pela ideia de refletir sobre a produção de normatividades de gênero e sexualidade por meio do olhar, incentivamos a juventude que compõem o Pra Brilhar a construir imagens questionadoras com objetos comuns.

Dispondo de uma colher, um copo de vidro e um rolo de barbante, dividimos a turma em dois grupos e demos início à produção de imagens. Os resultados foram interessantes: pode uma colher se tornar feminina? Um copo tem gênero? Quais imaginários culturais e sociais informam a percepção de masculinidade, feminilidade ou neutralidade associadas a um objeto?

Ao fim, a reflexão que importa construir é só uma: objetos não têm gênero e tampouco sexualidade. Atribuir qualquer característica associada a gênero e sexualidade a objetos é uma construção humana, social, cultural e histórica. Os paralelos com o corpo humano e a ideia de naturalidade da heterossexualidade ou do binarismo de gênero masculino/feminino são óbvios. O convite que fica é ampliarmos nossa percepção sobre como gênero e sexualidade estruturam toda nossa vida social – incluindo imagens comuns.

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