Sexualidade

A três é mais gostoso: um casal e a resistência

O amor como ato político dos casais homoafetivos nas periferias de São Paulo

 

Por Bruno Nathan e Paulo Sousa

 

Quando o assunto é relacionamento sério, a gente acaba tendo em mente um padrão de como agir e se comportar numa relação a dois. Nesse relato, vamos apontar para as manas que isso precisa acabar entre as nossas.

Uma grande gafe que cometemos é pegar referências de um relacionamento hétero como base, essa relação tida como “normal”, onde se encontram as identidades de gênero homem e mulher, masculino e feminino, e tudo o que foge desse contexto é considerado proibido. A relação hétero é baseada em privilégios e não precisa enfrentar o mundo ou “dar a cara tapa” para defender o direito de amar ou o direito à liberdade sexual – o que é uma realidade que nós, da população LGBT, precisamos enfrentar a todo instante, em qualquer lugar.

Um jeito para pensar as relações de gênero e sexualidade é justamente esclarecer as interseccionalidades, como os contextos se cruzam, e isso vai depender de onde cada um se enquadra, trazendo assim tanto o reconhecimento de privilégios quanto as desigualdades, ficando todos cientes do que realmente se passa.

Nossa população infelizmente se encontra em desvantagem, até mesmo nas nossas relações, onde a grande maioria sofre pressão em casa, na vila onde mora, nas ruas, etc. Essa pressão é, em geral, característica de uma população predominantemente cristã, hétero, cis e normativa, que faz com que a gente viva com um sentimento de medo e tensão por onde passamos.

Ainda somos a população que a cada dia vem sendo morta e pressionada a cometer suicídio. Para se ter ideia, em 2018, até o dia 15 de maio (último número registrado pelo GGB – Grupo Gay da Bahia), 111 pessoas foram assassinadas vítimas de crimes de bifobia, lesbofobia, homofobia e transfobia. Nessa estatística, surge ainda um número de 44 suicídios.

Todos esses números preocupam – e muito. Temos o exemplo da Laura Vermont, mulher trans, 18 anos, nossa amiga em comum, assassinada brutalmente por 5 homens, aqui no bairro de São Miguel Paulista. Depois de seu assassinato foi aberto um instituto que ganhou seu nome, localizado na Avenida Nordestina, local em que Laura foi morta. Seus assassinos estão soltos, prontos para cometer os próximos homicídios contra nós.

Para nós, as principais questões de ter um relacionamento homoafetivo envolvem o processo contínuo de desconstrução do normativo e nossa própria construção como casal. Pensar uma sociedade que nos mata e nos objetifica sexualmente, saber em qual determinado ambiente podemos trocar afetos como qualquer casal, prevenir andar de mãos dadas em determinados lugares e horários e lidar também com a falta de credibilidade das pessoas em relação à duração de um relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo são esforços cotidianos. Então, usar essa resistência que vêm em dose dupla e transformá-la em uma potência é mesmo para nós fundamental.

Amor é ferramenta para r(existir).

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